Terça-feira, Abril 15, 2008

Alimentos e Biocombustíveis


A política internacional está diante de um grande debate. Isso porque o preço dos alimentos aumentaram nos últimos anos e esse aumento se deu em escala global. As commodities estão em alta e, segundo analistas do BID e da ONU, isso acarretará na expansão da fome nos países mais pobres. Atualmente, o Brasil está se beneficiando desta inflação nos preços agrícolas, mas embora haja certo otimismo por parte do governo brasileiro no que tange a balança comercial e a boa fase econômica pela qual estamos passando, a ocorrência do debate sobre o preço dos alimentos está gerando um problema político e estratégico muito importante.

Nações protecionistas estão tentando minar a nossa estratégia de longo prazo para os biocombustíveis alardeando que que faltarão terras para se plantar comida caso o mundo se converta para biomassa. O argumento central de diversos países desenvolvidos como a França e os EUA é que as terras destinadas ao plantio de cana, fundamentais para a próxima revolução energética do mundo, gerarão uma falta de terras disponíveis para o plantio de alimentos, diminuindo a oferta e aumentando ainda mais os seus preços no mercado internacional. Concluem, em seguida, que plantar alimentos é mais importante que plantar cana, por razões humanitárias.

Mais uma vez estamos diante de uma falácia que visa minar os interesses do Brasil. Claro, se conquistarmos a hegemonia energética do próximo século poderemos elevar o Brasil a um patamar de desenvolvimento e riqueza jamais imaginados. E isso incomoda. Incomoda principalmente as nações hegemônicas. Para a França, vender reatores nucleares é um grande negócio. Para os EUA perder o controle estratégico sobre as fontes energéticas do mundo também. Então, esses países articularam um discurso e um argumento vestido de caráter humanitário para impedir o Brasil de se tornar o protagonista da matriz energética planetária.

Mas o argumento deles é falacioso. É infundado e nós brasileiros devemos explicar ao resto do mundo porquê.

Primeiro, a elevação dos preços nos alimentos não está ligada ao plantio de cana-de-açúcar. O Brasil planta cana extensivamente desde de 1600 e isso nunca impactou no preço dos alimentos, até porque a quantidade de terras cultiváveis disponíveis no Brasil é tanta que sobra terra. Na década de oitenta abastecemos mais de noventa porcento de nossa frota automotiva com álcool e os alimentos, nessa época, se mantiveram com preços baixos. Ou seja, uma coisa não está ligada a outra necessáriamente.

Segundo, a alta nos preços dos alimentos está ligada a outros fatores, que os países hegemônicos escondem do mundo. São eles, a quebra de safra por questões climáticas em diversos países agrícolas e principalmente o subsídio agrícola praticado pelos países desenvolvidos. Ao manter fortes subsídios agrícolas os preços se tornam artificiais, mas o custo de produção desses alimentos nos países do norte continua mais alto que o custo natural que seria estabelecido por uma competição justa no mercado internacional. Isso enfraquece as nações agrícolas e impedem o seu desenvolvimento, fato que naturalmente aumentaria a disponibilidade de alimentos no mundo.

Terceiro e principal motivo. A Índia e a China estão aumentando seu pode aquisitivo com taxas de crescimento econômico jamais vistas e neles há uma população gigantesca comendo mais. O mundo superpopuloso, pobre e carente, está podendo comprar mais comida e isso interfere diretamente no preço dos alimentos.

O que é mais covarde por parte dos países ricos é colocar a culpa desta alta de preços nos biocombustíveis brasileiros quando, de fato, ela está relacionada às suas próprias posições subsidiáristas, escondendo inclusive outros fatores fundamentais para o entendimento complexo do problema. Se o mundo estivesse sendo movido por biocombustíveis e estivessem faltando terras para agricultura familiar vá lá... Mas brecar a adição de 25% de álcool na gasolina para reduzir o impacto no aquecimento global chega a ser ridículo. Não falta terra no mundo. Falta vontade política de distribuir a renda e é exatamente isso que o protecionismo agrícola dos EUA e Europa impedem. Todo o discurso de liberalismo e livre mercado é uma piada. Uma história da carochinha inventada para abrir nossos mercados quando interessa. Quando não interessa a eles, surgem motivos aos montes para sabotar nossas estratégias de desenvolvimento.

Não, não. Deste vez não. O Brasil vai ser o principal fornecedor de biocombustíveis e o principal produtor de alimentos do mundo. Até porque já é. E é bom que os países ocidentais no norte entendam isso, caso contrário nós os excluiremos do novo processo civilizatório que o mundo construirá, dessa vez baseado em uma matriz energética limpa e infinita, além de um quadro de justiça social onde os países pobres e emergentes tenham voz ativa na democracia planetária.


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2 comentários:

Anônimo disse...

Obrigado pelo contato via Laboratório de Divulgação Científica. Tenho certeza que temos muito a colaborar. []'s!

Gustavo Zedy Miranda Forte disse...

[]'s!